Na clínica, nem sempre o sofrimento chega nomeado ou compreendido. Muitas vezes, ele se apresenta em silêncios, comportamentos sutis, sintomas corporais ou repetição de padrões. Esse tema convida à reflexão sobre:
Como escutamos o que ainda não é dito?
Quais recursos clínicos usamos diante do não verbal?
Como construir vínculo sem forçar o discurso?
Que cuidados precisamos ter com nossos próprios limites frente a essas demandas?
Este espaço é um convite ao aprofundamento técnico e afetivo sobre a escuta sensível — aquela que se faz também no silêncio.
Nesse caso, acho que a questão do atendimento presencial é bem superior ao online, pois te permite ver o paciente como um todo. O tom de voz, a postura do corpo, o zelo pelo autocuidado, os gestos, até o fluxo de respiração pode ter dar um indicativo. Outra coisa é ter paciência também, porque o paciente tem o tempo dele, e não dá pra conduzir a sessão pra todos os lados. As questões vão aparecendo, umas ele vai trazer, outras vc vai captar com suas anteninhas de vinil. É importante estar aberto para o que pode surgir da análise de uma sessão. Na devolutiva, você destrincha suas percepções com o paciente.
Esse é um dos aspectos mais delicados e, ao mesmo tempo, mais potentes da clínica: escutar aquilo que ainda não pôde ser dito. Às vezes, o sofrimento aparece na forma de um olhar que se desvia, uma pausa longa, um sintoma no corpo, um hábito que se repete sem explicação clara.
Aprender a não invadir esse silêncio com interpretações apressadas é um exercício constante. Acho que a construção do vínculo passa, muitas vezes, por oferecer ao outro o tempo que ele precisa para encontrar suas próprias palavras — ou mesmo aceitar que talvez elas nunca venham, e tudo bem.
Uso muito a escuta atenta do tom, do ritmo da fala, do que não é trazido. E também a escuta de mim mesma, porque às vezes é o que me afeta no silêncio do outro que diz muito sobre o que está em jogo ali.
É um trabalho que exige presença, afeto e, sobretudo, cuidado com os nossos próprios limites — para não nos perdermos tentando “completar” o que ainda está em construção.